terça-feira, 9 de abril de 2013

Os Amigos Invisíveis


À Dada, Alisson, Gux, Daison e Chris Hoffmann.


"Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade.
Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.
Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira.
Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão.

Amizade não é dependência, submissão.
Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra.
É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.

Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa.
Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas.
E já se está falando mal dele por falta de notícias.
Logo dele que nunca fez nada de errado!
O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva?
A proximidade física nem sempre é afetiva.

Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.
Amigo mesmo demora a ser descoberto.
É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.

Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios.
São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.
Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade.
Aqueles que não estão perto podem estar dentro.

Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente.
Não vou mentir a eles - vamos nos ligar? num esbarrão de rua.
Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.
Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados.
Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos.
Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação.


Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.

Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia, do blog. Significativos em cada etapa de formação.
Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.


Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos?
Amigo é o que fica depois da ressaca.
É glicose no sangue.
A serenidade."

Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Desconforto

Esse vazio definitivamente não me serve.
Minhas palavras escritas permanecem do mesmo jeito, exatamente como sempre foram. Mas hoje bem menos doces e, quem sabe, soem até um pouco ásperas ou ácidas.
Mudança de lua talvez explique um pouco disso.
É quando, de alguma maneira, trago à tona as partes que mais me doem.
Então sabemos: logo passa.


A verdade é que já tive dias bem mais felizes por aqui. É fato.
Como se houvesse sempre uma música de fundo, capaz de me fazer levantar da cama, todos os dias, com meu mais terno sorriso de entusiasmo.
Quem ama aquilo que faz sabe bem disso. As mais sinceras tentativas de se fazer florir esperanças que andavam adormecidas, dando outros ares ao que parecia tão desfigurado. Colocando seu jeito, sua maneira em cada tarefa, criando alternativas de melhorias, cultivando com carinho o lugar onde deseja plantar seu jardim.


Mas, em algumas circunstâncias de nada adianta insistir tanto nas mudanças. Em querer transformar algo há tanto já acostumado ao mais difícil e burocrático.
São totalmente infrutíferos os solos.
Persistir apenas resultará num profundo cansaço de toda nossa experiência.
Até desanimarmos e, exaustos tanto mentalmente quanto emocionalmente, optarmos por nos rendermos. O tal ponto final.


Mesmo que se teime em não aceitar o óbvio, em não admitir e respeitar o próprio esgotamento, inevitavelmente, desistiríamos.
E exatamente por já não mais sermos capazes de carregar tanto peso.

Já abri meu coração quando pensei jamais ter coragem para tanto. A ponto de rever minhas atitudes, de voltar atrás, reconhecer um erro e pedir perdão.
Já trabalhei incansavelmente sem esperar retorno, alguma recompensa ou prêmio de consolação.
Mas confesso, esperei por um agradecimento, um elogio pelo trabalho feito. Que nunca veio diretamente. E, era amor tudo que eu guardava.


Mas chega um momento que cansa viver somente para se agüentar. A gente vai esticando a corda até o limite do suportável, mesmo sabendo que isso, invariavelmente com o tempo, tende a encolher nosso coração.
E este aqui anda tão pequeno, apertado, diminuído. Perdendo um pouco das forças, de tanto resistir em admitir de que no fundo não passo de um mero dado estatístico.


Hoje foi um dia difícil, sensação de que por mais que se faça e se empenhe, nunca seu esforço será valorizado. E isso vai cansando.
Como é chato a gente acabar por se acostumar tanto. Quando se dá por conta, o tempo passou rápido demais e suas metas ficaram pra trás.
A gente vai percebendo, timidamente, o quanto se quer bem mais. De repente, todos aqueles indícios se mostram claramente diante dos nossos olhos lembrando que o plano era outro.


Difícil manter-se escravo de um bom comportamento o tempo todo sem, por vezes, chegar a sentir raiva em ter quase que mendigar atenção para se sentir confiável e capacitado. Parece que para ser uma pessoa boa, é preciso estar sempre provando ser ainda melhor, mais capaz o tempo todo, 24 horas por dia. E ainda assim, não é garantia de que seja suficiente.


Já acreditei um dia, que com o tempo, o tal reconhecimento viria. Talvez essa perspectiva um tanto utópica e romântica da pessoa aqui, tenha sido o fator principal que tenha me motivado até então. Hoje meu rosto não reflete mais isso, meu amor diminuindo dia a dia e o coração, acumulando decepções.
Certo protecionismo a um lado, benefício de folgas aos que menos ou nada fazem e sobrecarga de trabalho e cobrança aos em menor número e que mal têm tempo de almoçar com calma. Algo absurdamente injusto. Como se ninguém soubesse, ninguém percebesse.


Nas pautas sempre surge a tal “força tarefa” a ser feita, o que na prática raramente acontece. A falta de comprometimento profissional aliado à dificuldade em assumir responsabilidade de um setor, destrói por completo todo sentimento de equipe de outro.


Há desentendimento no conjunto, um festival de desencontros, uma impossibilidade de compartilhar as coisas já que parecem não falar a nossa língua.
A verdade para mim realmente é um grande desconforto. De um lado a gente abraçando o mundo por idéias, carregando um imenso peso no peito, infinitas vezes e, de outro, uns tantos resistindo em cooperar o máximo que podem, até aniquilar por completo todo nosso empenho.


Definitivamente, não sei fingir que está tudo bem. Se fingimento agora é motivo de orgulho e honra, prefiro me calar. Por que aí já se falou tudo e o melhor é não dizer mais nada. Seria inútil. Eles não compreenderiam.


Se há mesmo verdade na dificuldade dita em encontrar uma única ajuda a determinado setor, não seria interessante valorizá-lo em tempo já que parece tão escassa igual qualidade no mercado?
Ou é preferível perdê-lo por completo pela total falta de interesse em demonstrar o quanto ele importa à equipe toda?


De nada adianta descobrir tarde demais todo afeto, empenho e dedicação. Uma hora o cansaço de não ser olhado, de alguma forma, encontrará o seu jeito de ser plenamente visto e mostrar quem é mesmo que manda.


Como já escrevi diversas vezes, não compartilho da idéia do “ir empurrando com a barriga” até onde se puder agüentar. Feito às tais “reticências” que tantos adoram. Muito menos quando estas mesmas reticências se fazem perpetuar em nossas rotinas.
Sei o quanto é preciso ter paciência. Na verdade, vários estoques dela. Mas não faço experimentos com os limites da minha. Pareço, só pareço.


Aquilo que faltava lá no início de tudo, continuou a faltar do mesmo jeito, ainda que houvesse sinceridade nas partes que buscavam confortar a gente de alguma maneira, não houve qualquer mudança ou desejo de.
A não ser no meu olhar diante de tudo, que agora anda diferente.


Mas, com o tempo a gente aprende a fechar a porta, não levar pra casa. Continuar é a quinta marcha e com ela a gente não encontra congestionamento. O que é algo bom. Sai pra desopilar, desabafa. Aprende a cuidar da gente mesmo e, principalmente, a buscar aquilo que importa de fato, tudo o que dá sentido à nossa vida, que nos move e emociona.
Todas as longas caminhadas, de um jeito ou de outro, nos tornam mais fortes.
E, ao reorganizar sua volta ao que mais te faz feliz, percebe que tem um lado que reconhece a dedicação naquilo que ama. E te conforta, mesmo sem ter a mínima idéia do que a deixava tão desanimada e triste até então. Aí você chega em casa, brinca com os filhotes ao som de OTM, e tudo volta a ficar colorido! Bichos são sempre ótimas compensações. E, trilha sonora mais que bem vinda. Música talvez seja a única ilusão realmente necessária atualmente.


A vida segue, afinal.

“Hoje tenho da verdade outra impressão. Dar a vida por um amigo, acho que a única coisa nobre que existe é dar a vida pelo outro, o resto sai barato e quase nunca vem do coração, tudo vem do cérebro, o coração serve para bombear o sangue, só, só. A gente sente com o cérebro”. (Martha Medeiros)


Fique com alguém que te ame

Quando a gente quer muito uma pessoa, a gente se engana. A gente tenta encaixar aquele outro ser humano em posições que nunca foram dele. A ...