quinta-feira, 31 de março de 2016

Existe amor pequeno?

Existe amor pequeno?

Tempos atrás escrevi que não sabia amar pequeno. E eis que veio esta pergunta de Fran, minha prima linda que amo tanto, tanto... Mas tanto, que nem sei. E é isso então. De fato, não há amor pequeno. O amor, por si só é, como ela mesma citou - gigante e sem teoria. Intenso e desmedido é o meu amor por ela, por Duda, por Lia e Érica, por meus pais e outros familiares, por uma infinidade de amigos que talvez nem tenham a dimensão do quanto são maiúsculos e importantes em minha vida. 

E aqueles mimos ou bilhetinhos “espelhados” são apenas coisas simples. Coisas de uma canceriana de alma desassossegada, que busca incansavelmente por mais paz no coração. 

Por mais delicadeza nos gestos, mais trocas, mais energia e perfume das flores, mais reciclagem de sentimentos. Mais descobertas das preciosidades que cada um carrega dentro de si.

A canceriana aqui entende que um simples (?) bom dia ou um obrigado tornam nossos dias um bocado mais coloridos, mesmo quando tudo parece tão embaçado e pesado. Ajudam a espantar alguns vampiros ou pavões por aí, (porque sempre existem!). 

E a vida fica mais leve e bonita. E a gente se surpreende bem mais também.

Não quero ser perfeita e muito menos carrego a pretensão de agradar a todos. Apenas faço aquilo que me desperta entusiasmo. E faço por mim mesma. Por sentir imensa alegria em ver cada expressão de surpresa ou de carinho. Cada sorriso largo ou olho brilhando. É isto que me encanta, que me move e emociona, que me fascina neste mundo tão cruel de hoje em dia. Onde estamos não só desaprendendo do sentir, como do estar junto, do estar perto. Distantes do abraço apertado e do olho no olho. Falta tempo até para um café, um papo franco ou uma risada gostosa. É um jeito todo meu de tentar resgatar um pouco mais de sorrisos espontâneos e abraços longos.

Pulsa um amor tão grande em meu peito que preciso distribuir. E, por isso me transbordo. Tento ventilar um pouco de alegria e gentileza por onde passo. E me sinto muito bem assim, mesmo que fora do contexto. Mas, leve e feliz. E não espero nada que não seja sincero. Nada além de emoções, para não me surpreender ao me flagrar ainda mais feliz.

Porque carrego comigo essa necessidade de amar. Não sei dizer a razão deste afeto tão plural que trago dentro de mim. Só sei que a vida é este instante que logo se vai. É o saber aproveitar o dia de hoje porque amanhã nem sei. É ver leveza e poesia no nosso dia a dia. É semear mais amor por aí. É, acima de tudo, amar-se. Por que amar é de dentro pra fora. E meu amor é gigante! É “Gratitude”, né Fran? Não, não existe amor pequeno. Eu pelo menos desconheço. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Brasil: a democracia à beira do caos e os perigos da desordem jurídica

Quando, há quase trinta anos, iniciei os estudos sobre o sistema judicial em vários países, a administração da justiça era a dimensão institucional do Estado com menos visibilidade pública. A grande exceção eram os EUA devido ao papel fulcral do Tribunal Supremo na definições das mais decisivas políticas públicas. Sendo o único órgão de soberania não eleito, tendo um carácter reativo (não podendo, em geral, mobilizar-se por iniciativa própria) e dependendo de outras instituições do Estado para fazer aplicar as suas decisões (serviços prisionais, administração pública), os tribunais tinham uma função relativamente modesta na vida orgânica da separação de poderes instaurada pelo liberalismo político moderno, e tanto assim que a função judicial era considerada apolítica. Contribuía também para isso o facto de os tribunais só se ocuparem de conflitos individuais e não coletivos e estarem desenhados para não interferir com as elites e classes dirigentes, já que estas estavam protegidas por imunidades e outros privilégios. Pouco se sabia como funcionava o sistema judicial, as características dos cidadãos que a ele recorriam e para que objetivos o faziam. 

Tudo mudou desde então até aos nossos dias. Contribuíram para isso, entre outros fatores, a crise da representação política que atingiu os órgãos de soberania eleitos, a maior consciência dos direitos por parte dos cidadãos e o facto de as elites políticas, confrontadas com alguns impasses políticos em temas controversos, terem começado a ver o recurso seletivo aos tribunais como uma forma de descarregarem o peso político de certas decisões. Foi ainda importante o facto de o neoconstitucionalismo emergente da segunda guerra mundial ter dado um peso muito forte ao controlo da constitucionalidade por parte dos tribunais constitucionais. 

Esta inovação teve duas leituras opostas. Segundo uma das leituras, tratava-se de submeter a legislação ordinária a um controlo que impedisse a sua fácil instrumentalização por forças políticas interessadas em fazer tábua rasa dos preceitos constitucionais, como acontecera, de maneira extrema, nos regimes ditatoriais nazis e fascistas. Segundo a outra leitura, o controlo da constitucionalidade era o instrumento de que se serviam as classes políticas dominantes para se defenderem de possíveis ameaças aos seus interesses decorrentes das vicissitudes da política democrática e da “tirania das maiorias”. Como quer que seja, por todas estas razões surgiu um novo tipo de ativismo judiciário que ficou conhecido por judicialização da política e que inevitavelmente conduziu à politização da justiça.

A grande visibilidade pública dos tribunais nas últimas décadas resultou, em boa medida, dos casos judiciais que envolveram membros das elites políticas e económicas. O grande divisor de águas foi o conjunto de processos criminais que atingiu quase toda a classe política e boa parte da elite económica da Itália conhecido por Operação Mãos Limpas. Iniciado em Milão em abril de 1992, consistiu em investigações e prisões de ministros, dirigentes partidários, membros do parlamento (em certo momento estavam a ser investigados cerca de um terço dos deputados), empresários, funcionários públicos, jornalistas, membros dos serviços secretos acusados de crimes de suborno, corrupção, abuso de poder, fraude, falência fraudulenta, contabilidade falsa, financiamento político ilícito. Dois anos mais tarde tinham sido presas 633 pessoas em Nápoles, 623 em Milão e 444 em Roma. Por ter atingido toda a classe política com responsabilidades de governação no passado recente, o processo Mãos Limpas abalou os fundamentos do regime político italiano e esteve na origem da emergência, anos mais tarde, do “fenómeno” Berlusconi. Ao longo dos anos, por estas e por outras razões, os tribunais têm adquirido grande notoriedade pública em muitos países. O caso mais recente e talvez o mais dramático de todos os que conheço é a Operação Lava Jato no Brasil.

Iniciada em março de 2014, esta operação judicial e policial de combate à corrupção, em que estão envolvidos mais de uma centena de políticos, empresários e gestores, tem-se vindo a transformar a pouco e pouco no centro da vida política brasileira. Ao entrar na sua 24ª fase, com a implicação do ex-presidente Lula da Silva e com o modo como foi executada, está a provocar uma crise política de proporções semelhantes à que antecedeu o golpe de Estado que em 1964 instaurou a uma odiosa ditadura militar que duraria até 1985. O sistema judicial, que tem a seu cargo a defesa e garantia da ordem jurídica, está transformado num perigoso fator de desordem jurídica. Medidas judiciais flagrantemente ilegais e inconstitucionais, a seletividade grosseira do zelo persecutório, a promiscuidade aberrante com a mídia ao serviços das elites políticas conservadoras, o hiper-ativismo judicial aparentemente anárquico, traduzido, por exemplo, em 27 liminares visando o mesmo ato político, tudo isto conforma uma situação de caos judicial que acentua a insegurança jurídica, aprofunda a polarização social e política e põe a própria democracia brasileira à beira do caos. Com a ordem jurídica transformada em desordem jurídica, com a democracia sequestrada pelo órgão de soberania que não é eleito, a vida política e social transforma-se num potencial campo de despojos à mercê de aventureiros e abutres políticos. Chegados aqui, várias perguntas se impõem. Como se chegou a este ponto? A quem aproveita esta situação? O que deve ser feito para salvar a democracia brasileira e as instituições que a sustentam, nomeadamente os tribunais? Como atacar esta hidra de muitas cabeças de modo a que de cada cabeça cortada não cresçam mais cabeças? Procuro identificar neste texto algumas pistas de resposta.

Como chegamos a este ponto?

Por que razão a Operação Lava Jato está a ultrapassar todos os limites da polêmica que normalmente suscita qualquer caso mais saliente de ativismo judicial? Note-se que a semelhança com os processos Mãos Limpas na Itália tem sido frequentemente invocada para justificar a notoriedade e o desassossego públicos causado pelo ativismo judicial. Mas as semelhanças são mais aparentes do que reais. Há, pelo contrário, duas diferenças decisivas entre as duas operações. Por um lado, os magistrados italianos mantiveram um escrupuloso respeito pelo processo penal e, quando muito, limitaram-se a aplicar normas que tinham sido estrategicamente esquecidas por um sistema judicial conformista e conivente com os privilégios das elites políticas dominantes na vida política italiana do pós-guerra. Por outro lado, procuraram investigar com igual zelo os crimes de dirigentes políticos de diferentes partidos políticos com responsabilidades governativas. Assumiram uma posição politicamente neutra precisamente para defender o sistema judicial dos ataques que certamente lhe seriam desferidos pelos visados das suas investigações e acusações. Tudo isto está nos antípodas do triste espetáculo que um setor do sistema judicial brasileiro está a dar ao mundo. O impacto do ativismo dos magistrados italianos chegou a ser designado por República dos Juízes. No caso do ativismo do setor judicial lava-jatista, podemos falar, quando muito, de República judicial das bananas.

Porquê?

Pelo impulso externo que com toda a evidência está por detrás desta específica instância de ativismo judicial brasileiro e que esteve em grande medida ausente no caso italiano. Esse impulso dita a escancarada seletividade do zelo investigativo e acusatório. Embora estejam envolvidos dirigentes de vários partidos, a Operação Lava Jato, com a conivência da mídia, tem-se esmerado na implicação de líderes do PT com o objetivo, hoje indisfarçável, de suscitar o assassinato político da Presidente Dilma Roussef e do ex-Presidente Lula da Silva.

Pela importância do impulso externo e pela seletividade da ação judicial que ele tende a provocar, a Operação Lava Jato tem mais semelhanças com uma outra operação judicial ocorrida na Alemanha, na República de Weimar, depois do fracasso da revolução alemã de 1918. A partir desse ano e num contexto de violência política provinda, tanto da extrema esquerda como da extrema direita, os tribunais alemães revelaram um dualidade chocante de critérios, punindo severamente a violência da extrema esquerda e tratando com grande benevolência a violência da extrema direita, a mesma que anos mais tarde iria a levar Hitler ao poder.

No caso brasileiro, o impulso externo são as elites econômicas e as forças políticas ao seu serviço que não se conformaram com a perda das eleições em 2014 e que, num contexto global de crise da acumulação do capital, se sentiram fortemente ameaçadas por mais quatro anos sem controlar a parte dos recursos do país diretamente vinculada ao Estado em que sempre assentou o seu poder. Essa ameaça atingiu o paroxismo com a perspetiva de Lula da Silva, considerado o melhor Presidente do Brasil desde 1988 e que saiu do governo com uma taxa de aprovação de 80%, vir a postular-se como candidato presidencial em 2018. A partir desse momento, a democracia brasileira deixou de ser funcional para este bloco político conservador e a desestabilização política começou. 

O sinal mais evidente da pulsão anti-democrática foi o movimento pelo impeachment da Presidente Dilma poucos meses depois da sua tomada de posse, algo, senão inédito, pelo menos muito invulgar na história democrática das três últimas décadas. Bloqueados na sua luta pelo poder por via da regra democrática das maiorias (a “tirania das maiorias”), procuraram pôr ao seu serviço o órgão de soberania menos dependente do jogo democrático e especificamente desenhado para proteger as minorias, isto é, os tribunais. A Operação Lava Jato, em si mesma uma operação extremamente meritória, foi o instrumento utilizado. Contando com a cultura jurídica conservadora dominante no sistema judicial, nas Faculdades de Direito e no país em geral, e com uma arma mediática de alta potência e precisão, o bloco conservador tudo fez para desvirtuar a Operação Lava Jato, desviando-a dos seus objetivos judiciais, em si mesmos fundamentais para o aprofundamento democrático, e convertendo-a numa operação de extermínio político. O desvirtuamento consistiu em manter a fachada institucional da Operação Lava Jato mas alterando profundamente a estrutura funcional que a animava por via da sobreposição da lógica política à lógica judicial. Enquanto a lógica judicial assenta na coerência entre meios e fins ditada pelas regras processuais e as garantias constitucionais, a lógica política, quando animada pela pulsão antidemocrática, subordina os fins aos meios, e é pelo grau dessa subordinação que define a sua eficácia.

Em todo este processo, três grandes fatores jogam a favor dos desígnios do bloco conservador. O primeiro resultou da dramática descaracterização do PT enquanto partido democrático de esquerda. Uma vez no poder, o PT decidiu governar à moda antiga (isto é, oligárquica)
para fins novos e inovadores. Ignorante da lição da República de Weimar, acreditou que as “irregularidades” que cometesse seriam tratadas com a mesma benevolência com que eram tradicionalmente tratadas as irregularidades das elites e classes políticas conservadoras que tinham dominado o país desde a independência. Ignorante da lição marxista que dizia ter incorporado, não foi capaz de ver que o capital só confia nos seus para o governar e que nunca é grato a quem, não sendo seu, lhes faz favores. Aproveitando um contexto internacional de excecional valorização dos produtos primários, provocado pelo desenvolvimento da China,
incentivou os ricos a enriquecerem como condição para dispor dos recursos necessários para levar a cabo as extraordinárias politicas de redistribuição social que fizeram do Brasil um país substancialmente menos injusto ao libertarem mais de 45 milhões de brasileiros da jugo endêmico da pobreza. Findo o contexto internacional favorável, só uma política “à moda nova” poderia dar sustentação à redistribuição social, ou seja, uma política que, entre muitas outras vertentes, assentasse na reforma política para neutralizar a promiscuidade entre o poder político e o poder econômico, na reforma fiscal para poder tributar os ricos de modo a financiar a redistribuição social depois do fim do boom das commodities, e na reforma da mídia, não para censurar, mas para garantir a diversidade da opinião publicada. Era, no entanto, demasiado tarde para tanta coisa que só poderia ter sido feita em seu tempo e fora do contexto de crise.

O segundo fator, relacionado com este, é a crise econômica global e o férreo controle que tem sobre ela quem a causa, o capital financeiro, entregue à sua voragem autodestrutiva, destruindo riqueza sob o pretexto de criar riqueza, transformando o dinheiro, de meio de troca, em mercadoria por excelência do negócio da especulação. A hipertrofia dos mercados financeiros não permite crescimento econômico e, pelo contrário, exige políticas de austeridade por via dos quais os pobres são investidos do dever de ajudar os ricos a manterem a sua riqueza e, se possível, a serem mais ricos. Nestas condições, as precárias classes médias criadas no período anterior ficam à beira do abismo de pobreza abrupta. Intoxicadas pela mídia conservadora, facilmente convertem os governos responsáveis pelo que são hoje em responsáveis pelo que lhes pode acontecer amanhã. E isto é tanto mais provável quanto a sua viagem da senzala para os pátios exteriores da Casa Grande foi realizada com o bilhete do consumo e não com o bilhete da cidadania.

O terceiro fator a favor do bloco conservador é o fato de o imperialismo norte-americano estar de volta ao continente depois das suas aventuras pelo Médio Oriente. Há cinquenta anos, os interesses imperialistas não conheciam outro meio senão as ditaduras militares para fazer alinhar os países do continente pelos seus interesses. Hoje, dispõem de outros meios que consistem basicamente em financiar projetos de desenvolvimento local, organizações não governamentais em que a defesa da democracia é a fachada para atacar de forma agressiva e provocadora os governos progressistas (“fora o comunismo”, “fora o marxismo”, “fora Paulo Freire”, “não somos a Venezuela”, etc, etc.). Em tempos em que a ditadura pode ser dispensada se a democracia servir os interesses econômicos dominantes, e em que os militares, ainda traumatizados pelas experiências anteriores, parecem indisponíveis para novas aventuras autoritárias, estas formas de desestabilização são consideradas mais eficazes porque permitem substituir governos progressistas por governos conservadores mantendo a fachada democrática.

Os financiamentos que hoje circulam abundantemente no Brasil provêm de uma multiplicidade de fundos (a nova natureza de um imperialismo mais difuso), desde as tradicionais organizações vinculadas à CIA até aos irmãos Koch, que nos EUA financiam a política mais conservadora e que têm interesses sobretudo no sector do petróleo, e às organizações evangélicas norteamericanas.

Como salvar a democracia brasileira?

A primeira e mais urgente tarefa é salvar o judiciário brasileiro do abismo em que está a entrar. Para isso, o sector íntegro do sistema judicial, que certamente é maioritário, deve assumir a tarefa de repor a ordem, a serenidade e a contenção no interior do sistema. O princípio orientador é simples de formular: a independência dos tribunais no Estado de direito visa permitir aos tribunais cumprir a sua quota parte de responsabilidade na consolidação da ordem e convivência democráticas. Para isso, não podem pôr a sua independência, nem ao serviço de interesses corporativos, nem de interesses políticos setoriais, por mais poderosos que sejam. O princípio é fácil de formular mas muito difícil de aplicar. A responsabilidade maior na sua aplicação reside agora em duas instâncias. 

O STF (Supremo Tribunal Federal) deve assumir o seu papel de máximo garante da ordem jurídica e pôr termo à anarquia jurídica que se está a instaurar. Muitas decisões importantes recairão sobre o STF nos próximos tempos e elas devem ser acatadas por todos qualquer que seja o seu teor. O STF é neste momento a única instituição que pode travar a dinâmica de estado de exceção que está instalada. Por sua vez, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça), a quem compete o poder de disciplinar sobre os magistrados, deve instaurar de imediato processos disciplinares por reiterada prevaricação e abuso processual, não só ao juiz Sérgio Moro como a todos os outros que têm seguido o mesmo tipo de atuação. Sem medidas disciplinares exemplares, o judiciário brasileiro corre o risco de perder todo o peso institucional que granjeou nas últimas décadas, um peso que, como sabemos, não foi sequer usado para favorecer forças ou políticas de esquerda. Apenas foi conquistado mantendo a coerência e a isonomia entre meios e fins.

Se esta primeira tarefa for realizada com êxito, a separação de poderes será garantida e o processo político democrático seguirá o seu curso. O governo Dilma decidiu acolher Lula da Silva entre os seus ministros. Está no seu direito de o fazer e não compete a nenhuma instituição, e muito menos ao judiciário, impedi-lo. Não se trata de fuga à justiça por parte de um político que nunca fugiu à luta, dado que será julgado (se esse for o caso) por quem sempre o julgaria em última instância, o STF. Seria uma aberração jurídica aplicar neste caso a teoria do “juiz natural da causa”. Pode, isso sim, discordar-se do acerto da decisão política tomada. Lula da Silva e Dilma Rousseff sabem que fazem uma jogada arriscada. Tanto mais arriscada se a presença de Lula não significar uma mudança de rumo que tire às forças conservadoras o controle sobre o grau e o ritmo de desgaste que exercem sobre o governo. 

No fundo, só eleições presidenciais antecipadas permitiriam repor a normalidade. Se a decisão de Lula-Dilma correr mal, a carreira de ambos terá chegado ao fim, e a um fim indigno e particularmente indigno para um político que tanta dignidade devolveu a tantos milhões de brasileiros. Além disso, o PT levará muitos anos até voltar a ganhar credibilidade entre a maioria da população brasileira, e para isso terá de passar por um processo de profunda transformação. Se correr bem, o novo governo terá de mudar urgentemente de política para não frustrar a confianças dos milhões de brasileiros que estão a vir para a rua contra os golpistas. Se o governo brasileiro quer ser ajudado por tantos manifestantes, tem que os ajudar a terem razões para o ajudar. Ou seja, quer na oposição, quer no governo, o PT está condenado a reinventar-se. E sabemos que no governo esta tarefa será muito mais difícil.

A terceira tarefa é ainda mais complexa porque nos próximos tempos a democracia brasileira vai ter de ser defendida tanto nas instituições como nas ruas. Como nas ruas não se faz formulação política, as instituições terão a prioridade devida mesmo em tempos de pulsão autoritária e de exceção antidemocrática As manobras de desestabilização vão continuar e serão tanto mais agressivas quanto mais visível for a fraqueza do governo e das forças que o apoiam. Haverá infiltrações de provocadores tanto nas organizações e movimentos populares como nos protestos pacíficos que realizarem. A vigilância terá de ser total já que este tipo de provocação está hoje a ser utilizado em muitos contextos para criminalizar o protesto social, fortalecer a repressão estatal e criar estados de exceção, mesmo se com fachada de normalidade democrática. De algum modo, como tem defendido Tarso Genro, o estado de exceção está já instalado, de modo que a bandeira “Não vai ter golpe” tem de ser entendida como denunciando o golpe político-judicial que já está em curso, um golpe de tipo novo que é necessário neutralizar.

Finalmente, a democracia brasileira pode beneficiar da experiência recente de alguns países vizinhos. O modo como as políticas progressistas foram realizadas no continente não permitiram deslocar para esquerda o centro político a partir do qual se definem as posições de esquerda e de direita. Por isso, quando os governos progressistas são derrotados, a direita chega ao poder possuída por uma virulência inaudita apostada em destruir em pouco tempo tudo o que foi construído a favor das classes populares no período anterior. A direita vem então com um ânimo revanchista destinado a cortar pela raiz a possibilidade de voltar a surgir um governo progressista no futuro. E consegue a cumplicidade do capital financeiro internacional para inculcar nas classes populares e nos excluídos a ideia de que a austeridade não é uma política com que se possam defrontar; é um destino a que têm de se acomodar. O governo de Macri na Argentina é um caso exemplar a este respeito.

A guerra não está perdida, mas não será ganha se apenas se acumularem batalhas perdidas, o que sucederá se se insistir nos erros do passado.

Boaventura de Sousa Santos

Wi-fi: fidelidade sem fio


Acho que foi em 1993. Numa entrevista histórica para a MTV, Renato Russo disse a Zeca Camargo que achava lealdade mais importante que fidelidade. Eu era menina, mas lembro que gravei a entrevista numa fita VHS e revi inúmeras vezes, me intrigando sempre nessa parte.

Eu entendia pouco acerca do amor, dos afetos, da durabilidade das relações. Mas Renato Russo me influenciava numa época em que meu pensamento ainda estava sendo moldado e eu tentava, imaturamente, entender aquela declaração.

Isso foi há vinte anos. De lá pra cá, relações se construíram e desconstruíram na minha frente. E, vivendo minha própria experiência, finalmente consigo entender, e de certa forma concordar, com Renato Russo.

A fidelidade é permeada por regras, obrigações, compromisso. É conexão com fio, em que te dou uma ponta e fico com a outra. Assim, ficamos ligados, mas temos que manter a vigília para o fio não escapar e nosso aparelho não desligar.

Já a lealdade permeada pelo vínculo, vontade e emoção é o pacto que se firma não por valores morais, e sim emocionais. É conexão “wi-fi: fidelidade sem fio”, que faz com que eu permaneça unida a você, independente da existência de condutores ou contratos. Permaneço em pleno funcionamento por convicções permanentes e duradouras, invisíveis aos olhos.

Amor nenhum se atualiza sozinho. O tempo passa, a gente muda, o amor modifica. E, nessa evolução toda, a única tecla capaz de atualizar e permitir a duração do amor, é a tecla da lealdade. É ela que conta ao outro que estou mudando, que não gosto mais daquele apelido, ou que aquela mania de encostar os pés gelados em mim embaixo do cobertor ficou chata. É ela que diz que eu gosto tanto do seu cabelo jogado na testa, por que é que não deixa sempre assim?

Ou que traduz que tenho medo de te perder, mas ainda assim preciso lhe contar que na época da faculdade usei drogas, pratiquei magia ou fiz um aborto. É ela que permite que coisas ruins ou não tão bonitas encontrem um refúgio, um lugar seguro onde possam descansar em paz. É ela que faz o amor se atualizar e durar!

Lealdade é não precisar solicitar conexão. É conectar-se sem demora, reservas ou desconfianças. É compartilhar a senha da própria vida, com tudo de bom e ruim que lhe coube até aqui.
Leal é quem conhece as fraquezas, revezes, tombos e dificuldades do outro e não usa isso como álibi na hora da desavença; ao contrário, suporta sua imperfeição e o ajuda a se levantar.

Leal é quem lhe defende na sua ausência. É quem prepara seu terreno, se preocupa com sua dor, antecipa a cura.

Leal é aquele que é fiel por opção, atento ao amor que possui, zeloso com o próprio coração; é quem não omite o próprio descontentamento, mas aponta o que pode ser feito pra não se perder.

Então, sim, eu concordo com Renato Russo e acho que deslealdade separa mais que infidelidade. Pois não adianta não trair por fora, se traio o amor por dentro; se tenho medo de arriscar e polpo meu afeto de se conhecer por inteiro; se não tolero meu caos e vivo uma mentira imaculada; se não absolvo minha história nem perdoo meu enredo, desejando fazer dele uma fábula fantasiosa aos olhos de quem amo; se contrario minha vontade e disposição e omito minhas intolerâncias pra não ferir, me afastando silenciosa e gradativamente até a ruptura; se me apresento por partes – as melhores ficam aparentes, as nem tanto eu omito e não permito ser conhecido.

Finalmente, se não confio a ponto de compartilhar a poltrona do carona ao meu lado reservando apenas o banco de trás (e olhe lá!) à minha companhia nessa viagem!

Fabíola Simões

sábado, 19 de março de 2016

Não confunda “aceitar” com “compreender”

A gente não precisa do reconhecimento do Outro para saber o valor que temos. Podemos compreender uma situação e não aceitar uma atitude. Podemos julgar um comportamento sem desvalorizar, por inteiro, a pessoa que o exerceu. 

Que cada um se responsabilize pelas suas mazelas e que administre a sua raiva ou irritabilidade. Não precisamos de plateia e nem de ser plateia do que é cáustico. Entupir-se de citações de espiritualistas e filósofos não nos faz mais sábios. As nossas atitudes denunciam o que apreendemos verdadeiramente. O que nos faz mais sábios é o nosso comportamento: quando genuinamente amoroso. Mude seu discurso se você não consegue incorporá-lo. Não cobre do Outro o que não é capaz de fazer e nem se deixe ser cobrado. 

Seja honesto consigo, viva a transparência por pura leveza de Consciência. Não sejamos inescrupulosos agindo de maneira conveniente com quem não nos espelha e descontando nossos desconfortos em quem nos ama e apoia; em quem achamos que não se afastará de nós por pura compreensão. 

E não aceite, embora possa compreender, um problema que não é seu. Não se torne o problema que o Outro criou para vocês. Separe as coisas: investigue-se, reflita, seja atencioso com a sua conduta. E reconheça se estiver errado. Mas devolva, mentalmente, quaisquer atitudes que o fizerem se sentir menor. 

Esteja ao seu lado para crescer ou ajudar a quem quiser sua ajuda. Cresça com esta ajuda sem se regozijar por tê-la dado. Esteja em consonância com o que acredita e, tente acreditar no melhor: se permita.

Marla de Queiroz

quinta-feira, 17 de março de 2016

O que será que estão pensando de mim?


O que será que estão pensando de mim? Será que ele ficou chateado? Nossa, acho que ela não gostou do que falei. Putz, acho que deveria ter feito de outra forma. Não devia ter feito assim. Seria melhor se eu tivesse perguntado antes. E agora? Será que eu consigo voltar no tempo? Como faço para não sofrer mais com isso? Nossa, de novo! Não acredito que errei isso mais uma vez. Eles vão ficar decepcionados comigo. Como faço agora?"
Acho que só de ler esse parágrafo você deve ter ficado cansado.
Pois é.

Essa era a minha mente uns meses atrás. Era isso o que acontecia todos os dias dentro da minha cabeça. Ou nas nuvens que rodeiam meu cérebro. Sei lá.
O fato é que é impossível viver em paz assim. É impossível ser quem você é de verdade com esse monte de pensamento e julgamento.
Eu vivia aprisionado pela necessidade de aprovação dos outros.
Eu vivia a vida tentando agradar a todos e fazendo de tudo para não decepcionar ninguém.
Mas será que isso é possível?
Eu achava que era possível sim.

Só que não é. E quando eu entendi isso, eu me libertei.
Eu me libertei das minhas próprias cobranças.
Eu me libertei dos meus próprios julgamentos.
E quando eu aceitei que não conseguiria agradar a todo mundo e parei de tentar fazer tudo pelos outros, minha vida se transformou.
Eu consegui uma coisa que nunca tive a vida toda: paz.
Se você vive pela necessidade de aprovação dos outros, é impossível ficar em paz. Porque você nunca vai conseguir atender às expectativas dos outros.
O que os outros pensam de você é problema deles.
Quando você vive com boas intenções e não quer prejudicar ninguém, você deve conseguir a capacidade de ficar bem com as escolhas que fez.
Se uma pessoa fica chateada com o que você fez, quem está sofrendo é ela. 
Você não precisa sofrer junto.
Se uma pessoa acha que eu deveria ter feito diferente e mantém essa exigência, 
quem deve superar isso é ela, não eu.
Eu vou errar. Eu sei disso.

Mas meus erros não devem ser nada mais que passos para o aprendizado.
Não posso transformar meus erros em dor eterna. 
Não posso fazer meus erros me machucarem por semanas, meses ou anos.
A dor do erro deve acabar no momento em que eu entendo porque errei e aceito e assumo.
Pare de sofrer pelos outros. Pare de assumir uma carga emocional que a outra pessoa carrega.
Se você sofre com o que o outro pensa de você, você está dando a essa pessoa o controle da sua vida.
Já é suficientemente difícil ser você mesmo e viver a sua vida com os seus problemas e os seus desafios. Por que carregar o sofrimento dos outros?

Faça as pazes com você mesmo. Aceite as coisas que você fez errado. Assuma e siga andando. Já foi. Você já aprendeu. Já se arrependeu e agora vamos para o próximo erro. 
Não se prenda ao erro da semana passada.
Sua vida vai ficar mais leve assim.

O que os outros pensam de você diz respeito a eles só. Tanto faz o que eles pensam de você.

Gustavo Tanaka

quinta-feira, 10 de março de 2016

Não temos amado acima de todas as coisas


Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceitado aquilo que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos uma alegria que já não tenha sido catalogada. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível.

Clarice Lispector

A vida não funciona ao acaso


A sabedoria mostra que a vida não funciona ao acaso. Ela ensina que tudo o que acontece neste teatro da vida tem um significado profundo. A sabedoria também revela que a colheita de hoje é resultado do que foi semeado ontem. Quando existe o desejo de colher melhores frutos, qualquer ato é preenchido de positividade e beleza. Quando eu tenho esse entendimento eu fico satisfeito e contente com tudo que está acontecendo na minha vida.

Brahma Kumaris


terça-feira, 8 de março de 2016

Pingo ♥


Mazzzzá, galo véio! Chegou o teu dia. Parabéns, mano! \o/ \o/
Muitos sorrisos, afagos e amor na tua vida. Hoje e sempre!

Dia do meu irmão número 3, como gosto de brincar. Do mano de peixes, emotivo feito a canceriana aqui. Amável e receptivo como poucos.
Tem uma coisa chamada genética que nos torna de certa maneira bem parecidos apesar de não torcermos pelo mesmo time, sabia?

E essa coisinha, por feliz coincidência – ou simplesmente por ser genética mesmo – se utilizou um bocado do teu molde pra me fazer. Cabelos e olhos castanhos. Sorriso estampado nos olhos, alegria exposta. Sensibilidade ao extremo. E um coração maior que nós mesmos. De alma somos muito parecidos, acredite!

Uns falam que família a gente não escolhe. Bom, eu não escolheria outro lugar no mundo pra existir que não o mesmo desse cara tão amoroso e dedicado.

Que sempre me defende, me protege e me deixa feliz. Que se desdobra para poder ajudar, que se coloca no lugar do outro. Que sabe o jeito mais prático de me arrancar sorrisos, mas também de me irritar profundamente. Porque conhece muito das minhas virtudes e cada pedacinho dos defeitos meus também. Carrega o maior amor no melhor abraço do mundo. É carinho que transborda. É generosidade e carisma tatuados na pele. É de casa, mesmo morando longe. É de dentro. É pra sempre.

Obrigada por me fazer sentir a mana mais amada e mais forte do mundo.
Várias delas saudades apertadas! 
"Carpe Diem" ;-)
Amo-te! ♥ ♥ ♥

domingo, 6 de março de 2016

A gente descobre que está ficando “velha” quando...

· Calça 38 só com “reza braba”; 
· Na verdade a 38 virou 42, mas a gente fala que veste 40; 
· Emendar balada com trabalho já não é tão simples assim; 
· A gente finalmente entende que não adianta espernear que ele não volta; 
· Conselho de mãe finalmente começa a fazer sentido; 
· A gente percebe que homem misterioso/confuso na verdade é um porre; 
· A companhia é mais importante que o lugar; 
· A baladinha da moda que TODO MUNDO vai é o último lugar que você quer ir; 
· A gente se da conta que é mortal e as pessoas que amamos também (portanto, reclame menos e aproveite mais); 
· O que as pessoas falam sobre você realmente não interessa (a não ser que seja um amigo ou parente muito querido); 
· Você pode não ter ficado mais confiante, mas você disfarça bem que é uma beleza; 
· Ser feliz fica mais simples e você começa a dar valor ao que realmente tem. 

Fernanda Gaona

Pensar é transgredir



Não me lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente
reinvenção de nós mesmos - para não morrermos soterrados
na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim,
Apesar dos medos, convém não ser fútil demais, nem demais acomodada.
Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres,
mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser
sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Pensar é transgredir


Lya Luft

quarta-feira, 2 de março de 2016

Canção Final

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma. 
É não venerar os códigos 
de acasalar e sofrer. 
É viver tempo de sobra 
sem que me sobre miragem. 
Agora vou-me. Ou me vão? 
Ou é vão ir ou não ir? 
Oh! se te amei, e quanto, 
quer dizer, nem tanto assim. 

Carlos Drummond de Andrade

Meu Tom 🐈💙

A parte mais difícil realmente é voltar pra casa com a caixinha vazia. Afirmo, por experiência própria.   É quando de fato a fich...