terça-feira, 23 de agosto de 2016

A diferença entre "ser amado" e "ser útil"

Você ter utilidade pra alguém é uma coisa muito cansativa. 
Ta certo, realiza. Humanamente falando é interessante você saber fazer as coisas, mas eu acredito que a utilidade é um território muito perigoso, porque muitas vezes a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. 

Ele ta interessado naquilo que a gente faz por ele. 
E é por isso que a velhice é esse tempo que passa a utilidade e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é um momento que a gente purifica, né? É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade. 

Porque só nos ama / só vai ficar até o fim, aquele que depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. Por isso eu sempre peço a Deus, sabe? Sempre faço à Ele, a oração D’Ele. Poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. 

Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranquilidade, né... 
De ser inútil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor. 

Quando eu viver aquela fase na vida: põe o Pe. Fábio no sol… Tira o Pe. Fábio do sol… 
Aí eu peço à Deus sempre a graça de ter quem me coloque ao sol, mas sobretudo, alguém que venha me tirar depois. 

Alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe pra mim assim, que sabe / que possa saber que eu não sirvo pra muita coisa, mas que eu continuo tendo meu valor. 

Porque a vida é assim, minha gente, fique esperto, viu? Se você quiser saber se o outro te ama de verdade, é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. 

Quer saber se você ama alguém? pergunte a si mesmo: quem nessa vida já pode ficar inútil pra você, sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora? 
É assim que descobrimos o significado do amor. 
Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. 

Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir a fala que diz: “você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você”.

Pe. Fábio de Mello

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Amor também é desistir

Deixa eu te dizer uma coisa. Nem tudo que a gente quer ter, quer dizer que é realmente bom pra gente. Às vezes a gente tem uma mania de querer empurrar coisas que não fazem mais sentido na vida da gente por medo de encarar a realidade. Às vezes a gente acha que colocar toda sujeira pra debaixo do tapete e continuar em algo que não vale mais a pena, é o melhor caminho. 

A gente erra ao pensar que o amor é permanecer, é suportar absolutamente tudo e ficar independente de qualquer coisa. Mas a verdade é que o amor é, também, cair fora quando o outro não te respeita. É ir embora por que o sentimento não é recíproco, é deixar pra trás aquilo que não te acolhe mais, aquilo que só te machuca. Amor é saber abandonar o barco quando você estiver remando sozinho, é desatar os laços que se transformaram em nós apertados.

Amor é entender que nem sempre a gente fica com o amor das nossas vidas, que amar alguém pode durar uma semana ou uma vida inteira, mas que o amor deixa de fazer sentido quando só um está disposto, quando só um quer fazer valer. Amor é saber seguir em frente sozinho, é se virar com a dor da saudade e aceitar que um dia ela para de doer e você volta a agradecer pelo que foi embora. Amor é ter a consciência de que, se você se doou por inteiro e mesmo assim, o outro não enxergou a tua entrega, quem perdeu não foi você.

Amor é ter que abrir mão de alguém que você gosta pra caralho, porque você, por mais que tente, não consegue enxergar mais razões pra permanecer ali. Amor é ter coragem de dizer: ''chega'', de virar as costas, de se desligar de alguém que nunca está disponível pra você. Amor também é ter coragem de pôr um fim ao invés de adiar algo que já acabou faz tempo só porque você não consegue aceitar.

Até que ponto vale a pena ficar com alguém que não te traz paz, alguém que te tira do sério, alguém que estraga o teu dia, por amor? Uma hora a gente entende que amar alguém requer esforço dos dois lados. Que o amor não é uma disputa de quem alcança a linha de chegada primeiro, amor é caminhar lado a lado. E que amar a dois pode ser prazeroso quando se tem reciprocidade, mas quando isso não existe, se amar já é o suficiente. 

Dizem que a gente deve insistir, persistir e jamais desistir de algo que a gente quer muito. Mas a gente só deve insistir naquilo que realmente vale a pena, persistir no que faz bem e nunca desistir de quem quer ver a gente bem. Amor também é expulsar tudo aquilo que só te traz caos, porque o amor não deve ser um problema e sim, a solução. 

Iandê Albuquerque

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Felicidade necessária

Eu queria ser feliz e mal sabia que a tão urgente e excitante felicidade, em papel fotográfico colorido era um milagre, um nó que aguardava um expert para desatar. E o eterno gosto incômodo de buscar a aurora boreal como saída para a minha sobrevida me encurralava nas coisas mais comuns. A memorável, inesquecível e poderosa felicidade, existia apenas na casa ao lado, na próxima esquina, no botequim de sexta-feira. Era como buscar o centro do mundo no buraco mais frívolo do asfalto. Custou, mas entendi o direcionamento que a vida estava emoldurando, pelo menos para mim.

A felicidade não é aquele prêmio escroto cheia de improbabilidades, colocada bem no topo da prateleira, onde quase ninguém consegue alcançar.

De brava sofredora, passei a ser espiã dos minúsculos bocejos de alegria e enchi minha agenda com todas as badalações felizes. Suportei também o peso dos meus dias vazios, e por fim passei a comemorar minha vida, sem franzir a testa. Acabaram as frustrações. Felicidade era toda a situação libertadora que eu estava acostumada a viver e nem me dava conta disso.

É o leite quente logo cedo. O café que não entornou no fogo. O meu cãozinho lambendo meus pés, de pura alegria pela minha chegada. O meu chocolate predileto. Um dia de descanso depois do trânsito maluco. A comemoração do primeiro beijo. O tênis confortável. O perdão por um erro sem intenção. É visitar o passado borbulhante de boas lembranças e reler pilhas de bilhetes sem a dor da amargura. É saber cuidar do que ficou depois que ele se foi. Ser hospitaleiro quando os sentimentos baterem à porta. A felicidade pode ter uma forma imensa ou apenas o tamanho da palma da mão. Isso tanto faz, pois o resultado possui a mesma dimensão.

Felicidade assim é absolutamente imprescindível. Necessária e insubstituível. Faz parte da ala de sobrevivência, pois não projeta objetivos inalcançáveis. Felicidade necessária que eu, tu, ele e todos os outros necessitam.

Hoje, eu deito e rolo nas misturas simplificadas, pequenas e com um pouco de cor, incluindo as informalidades deliciosas que trazem a simples felicidade, tal como um cafezinho quente nos dias frios.

Felicidade é isso, aquilo e aquilo outro. É a verdade esquecida sobre mim mesma. Posso correr para todos os lados, sempre com a impressão de que se houver uma razão pequena que me arranque um alívio, um suspiro, um sorriso, convenço-me de que é a felicidade necessária.

Ela é divertida, transitória, passageira, rápida, para dar lugar à outra situação simples, comum, mas imperfeita e feliz.

Agora, conforme a demanda do momento, posso ficar feliz com um simples bom dia acompanhado de um sorriso iluminador ou com um abraço inesperado. Estar feliz minimiza o efeito da insegurança, da confusão afetiva e de outras tiranias. Esse sentimento de pertencimento à felicidade parece que nasceu junto com a minha impressão digital e entre as minhas prioridades, estar feliz é quase um código de conduta, uma senha obrigatória. É conferir de perto o arranjo feito entre o acorde e a partitura. Eu entendi isso, e agora aceito todos os imprevistos felizes. Aceito ter como hóspede, a tal felicidade necessária de cada dia, amém.

Ita Portugal

terça-feira, 9 de agosto de 2016

...


Não existe explicação para ser tomado de amor, alegria e gratidão. Um dia, simplesmente, as coisas fazem sentido, principalmente situações aparentemente desagradáveis do passado. Então você percebe que quando não conseguia andar, é porque estava aprendendo a ficar parado pra pensar mais, observar mais, cuidar de outras coisas que estavam sendo negligenciadas pela sua falta de tempo. A gente corre demais o tempo todo, mas isto não faz o nosso dia maior, isto só faz o nosso dia ser mais cansativo e nos empobrece. Por isso as pessoas perdem a beleza da segunda-feira porque passam as horas todas da semana esperando a sexta. E pouco se dão de prazer quando chega o fim de semana, porque além de tudo, se deprimem no domingo. 

Há tanto a ser vivido de maneira mais leve, mesmo dentro desse turbilhão de trabalho e estudo e correria para ver quem acumula mais bens materiais. E todos esquecem que o corpo pede um olhar mais minucioso, os dias pedem mais admiração, as pessoas são mais importantes que as coisas e os acontecimentos são aprendizados, eternos aprendizados. As pessoas estão esquecendo que têm o direito à escolha e que cada um tem que passar por todas as estações do ano. 

Tenham sensibilidade para que a arte, por exemplo, penetre verdadeiramente o coração de vocês. Tenham consciência de que a espiritualidade é um ato de amor e liberdade. Tenham vontade de alegrias cotidianas se dando um pouco mais de mordomia emocional quando tudo está dando "errado". E exerçam o autoamor: ao se colocar nos 5 primeiros lugares você vai se fortalecer a ponto de poder, um dia, ajudar verdadeiramente alguém, ou amar sem posse, ou estar feliz sozinho, ou......(complete a frase). 

Marla de Queiroz

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate, nem apanha

Depois de um longo relacionamento e de ter conhecido algumas pessoas que não me agradaram tanto pelo modo que elas agiam, quanto pelo simples fato de não fazerem absolutamente nada. Hoje, é dentro do meu limbo que eu encontro paz e me sinto satisfeito.

Ando com preguiça de me dispor e me despir pra alguém pela milésima vez, preguiça de começar do zero e ter que contar toda a minha historia outra vez, ter que voltar pro grande jogo das conquistas e planejar encontros. Ando com preguiça de conhecer alguém, enviar uma mensagem e ficar grudado no celular esperando por uma resposta que demora pra chegar e às vezes nunca chega, preguiça de reservar algumas horas da minha vida pra sair com alguém e no outro dia, ter que lidar com o sumiço da pessoa. Não tenho esperado mais resposta de ninguém e tenho tido pavor de responder alguém que não sejam os meus amigos.

Dizem que ninguém consegue ficar sozinho por muito tempo, que viver ao lado de alguém, ter alguém pra cuidar de você é essencial na vida. Mas eu estou ótimo me cuidando sozinho e não acho que ficar sozinho seja o fim do mundo se você está sempre disposto a descobrir coisas novas pra manter o teu mundo maior e tua vida bem mais interessante. Eu não preciso de alguém pra me fazer rir, pra me dar um cafuné antes de dormir, pra me trazer café na cama e pra me apresentar bandas que eu nunca ouvi. Dizem que uma hora chega sua vez, uma dia o cupido acerta a flecha, em algum um momento o amor esbarra na gente e quando isso acontece, não tem pra onde correr.

Não sei se fiquei desinteressante ou se me tornei mais exigente e maduro. Não sei se está cada vez difícil encontrar uma parceria real numa época em que os aplicativos de pegação, a falta de interesse somada a falta de tempo tem transformado as pessoas em seres totalmente desinteressantes pela apatia. O fato é que cheguei num momento que cansei de estar sempre disponível pras pessoas que cada vez mais parecem estar indispostas, cansei de tentar e de pensar em tentar mas acabar não tentando porque o interesse acabou antes disso. Cheguei no momento só meu – e talvez, você que esteja lendo isso também tenha chegado – isso não deve ser ruim se você se sente bem consigo mesmo e confortável pra fazer o que quiser, quando e onde quiser.

Chega um momento que as pessoas vem e vão, vem em vão. Nada contagia, parece que nada é bom o suficiente pra ficar. Ninguém é capaz de te devolver aquele brilho no olhar que todo apaixonado carrega consigo, ninguém é tão bacana o suficiente pra te puxar do limbo. A gente passa por cada coisa, recebe tantas pedradas ao longo do caminho, coleciona mais algumas decepções e tapas na cara que quando a gente amadurece, a gente passa a exigir mais do outro sem nem saber se o outro já passou pelas mesmas estradas que a gente percorreu. E então aquela frase do Arnaldo Antunes passa a fazer todo sentido pra gente: ”Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate, nem apanha”.

Iandê Albuquerque

terça-feira, 26 de julho de 2016

Poderia ter sido eu...


Era meu caminho habitual. Fosse um dia de chuva, estaria passando por baixo daquela marquise, como de costume. De repente olhei para o lado esquerdo e tudo desabava. Só pensei em ir em direção à moça que vi caída com o braço esquerdo por debaixo dos pedaços de concreto. Larguei a mochila e, junto com dois caras que correram em direção à moça, tentamos levantar o tal concreto. Era demasiadamente pesado e a lateral da viga de sustentação, balançava. Por uns minutos tentamos em vão pois nada se mexia. Foi quando chegou mais um rapaz. Me afastei quando percebi que havia outra moça alguns metros dali também caída, porém de bruços e desacordada. Talvez já estivesse morta. Naquele momento só me veio à cabeça, ligar para pedir ajuda. O Samu só dava ocupado. Foi quando outra moça passou por mim e disse que já haviam chamado socorro e que o melhor era nos afastarmos daquela marquise antes que mais pedaços caíssem sobre aqueles que tentavam ajudar.

Soube mais tarde, ainda pela manhã, que a moça loira que estava desacordada havia falecido. Passei o dia inteiro no trabalho péssima, num misto de sentimentos. Por uns instantes me caiu a ficha: poderia ter sido eu. À noite fui à PUC nadar e tentar abstrair, esquecer todos pensamentos ruins daquela quinta-feira. Saí ainda mais tensa. Como se carregasse na água um peso imenso sobre os ombros. Não consegui me concentrar, não relaxei. Era como se as luzes apagassem e as cortinas se fechassem de repente. Me sentia zonza, impotente, visivelmente triste. Haviam me roubado naquele momento a capacidade do encanto.

Ao chegar em casa, já na cama, desabei a chorar tal qual uma criança, feito um escritor sem seus parágrafos a escrever ou relendo coisas escritas que naquele momento não faziam sentido algum. Meus bichos sem entender nada, me acariciavam como se pudessem enxergar todo meu cansaço, toda minha tristeza. Faltam-me palavras para descrever a loucura que foi aquele dia. Deitava minha cabeça no travesseiro e tudo parecia rodopiar, incansavelmente, encobrindo meu sorriso.

Sexta não conseguia levantar da cama. Meu corpo estava em frangalhos e minha alma divagando por lugares desconhecidos. Olhar fixo para um nada e a música abafada dentro do peito. Ao ligar a televisão, soube então que a outra moça também havia falecido. E um desespero tomou conta do meu coração, a voz embargou. Fiquei pensando que poderia ter sido eu. E não havia feito tudo que gostaria de fazer, não havia sequer dito a algumas pessoas o quanto elas me são especiais, o quanto cresci e aprendi junto delas. Não agradeci por todas as que passaram pela minha vida e que, se não permaneceram, pelo menos me ajudaram de alguma maneira a ser uma pessoa melhor, em algum instante me proporcionaram felicidade ou estiveram presentes em momentos importantes da minha vida e contribuíram para meu amadurecimento, minha maneira de enxergar a vida atualmente.

Poderia ter sido eu naquele dia. E não me despedi dos que amo. Não deixei um pedido a quem ficar com meus filhotes, a quem proteger e cuidar da minha afilhada, quem acalentaria meus pais e minhas preciosidades. A verdade é que ainda não me desliguei daquele dia trágico. Uns me disseram hoje que estou estranha e não discordo. Um turbilhão de coisas passa pela minha cabeça desde então, faltam-me as poesias dos afetos a contagiar meus dias.

Como escreveu Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” E é por aí mesmo. Ainda me pego com os olhos embaçados, um tanto quieta, com poucos movimentos e me entristeço ao lembrar do meu casaco sujo da poeira do concreto. Pequenas coisas que fazem afrouxar um pouco o riso, mas também que me relembram constantemente da oportunidade valiosa que é a vida. Este momento mágico e instantâneo. E que pode desaparecer numa fração de segundos, num piscar de olhos. Ando procurando arejar um pouco a alma. Tentando fazer florescer o sorriso bom de paz e leveza aos meus olhos. Esquecer da confusão toda daquele dia tão escuro.

Poderia ter sido eu. E não amei o suficiente, não brinquei, não ri, não nadei tudo que gostaria de nadar, não alegrei as pessoas que adoro, não sorri como poderia, não agradeci como deveria.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Tão importante quanto seguir em frente, é saber deixar pra trás

Tenho um tio muito querido que é um nostálgico compulsivo. Adora tomar seu vinho ao som de Nat King Cole, Billie Holiday e Frank Sinatra, enquanto nos remete aos idos de nossa infância e à lembrança de um tempo bom. Estar ao seu lado é uma festa saudosa, que invariavelmente traz de volta um pouquinho do que éramos e de como nos sentíamos juntos.

Porém, outro dia, conversando com uma amiga, falávamos sobre a necessidade de seguir em frente. E sobre o quanto isso implica deixar certas coisas, lugares, pessoas e momentos para trás.

Porque não basta abrir as portas para o novo tempo. É preciso fechar algumas janelas também. E talvez fechar algumas janelas seja a parte mais difícil de seguir em frente…

Como deixar partir fragmentos do que fomos ao trancarmos nossas janelas?

Talvez a resposta esteja na vivência do luto. É preciso respeitar a dor do fim de um tempo, mesmo que novas portas (muito melhores) estejam se abrindo à nossa frente.

É preciso deixar partir a infância dos filhos, o fim de um relacionamento que parecia perfeito, as amizades que não tinham vínculos muito sólidos, as palavras de amor que não vingaram, a própria juventude, o corpo perfeito, o tempo bom de faculdade, a saúde de nossos pais.

Diante da finitude, temos que aprender a seguir em frente sem olhar pra trás com saudosismo ou sofrimento.É preciso coragem para queimar cartas antigas que perderam espaço em nossa memória afetiva, deixar abrigos conhecidos onde não nos refugiamos mais, dar chances à novas possibilidades de felicidade.

Nem tudo resiste ao tempo. Agarrar-se ao que não existe mais não permite que novas chances se revelem.

O ouvido se habituará a novos sons se a gente deixar que ele escute novas canções. Assim também aprenderemos a aceitar o novo tempo se facilitarmos o começo de novas possibilidades e entendermos que não há mais o que se esperar daquilo que já passou.

Não há o que se esperar do passado. Ele aconteceu, foi bom, ficou vivo dentro da gente, nos fez feliz… mas passou.

Que permaneçam as boas lembranças, não o desejo de perpetuar vapores de um tempo que não floresceu.

Que os álbuns de fotografia em sépia sirvam para nos lembrar os sorrisos e sonhos que tínhamos, mas não substituam a alegria de nos relacionarmos com quem está ao nosso lado aqui e agora.

É preciso aprender a partir. A abandonar nossos lugares no mundo e de dentro das pessoas.

Descobrir que, tão importante quanto seguir em frente, é saber deixar pra trás.

Vivendo um luto de cada vez, aprendendo a desistir um tanto do que éramos para abrir espaço para quem nos tornamos; acreditando que uma vida abriga inúmeras fases, e para vive-las com sabedoria é preciso resgatar o novo e abandonar o velho; sendo tolerante com alegrias novas que querem chegar, e permitindo que nos mostrem o que podem fazer por nós.

Nem sempre é fácil reconhecer que um tempo chegou ao fim. Insistimos em reviver antigos papéis, trazer à tona emoções que se esgotaram, resgatar pessoas que já partiram há muito tempo de nós.

Cada um encerra seus ciclos de forma diferente, e é preciso respeitar o tempo de cada um.

O presente te escolheu. Tenha a sabedoria de escolhê-lo também…

Fabíola Simões