sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O que faz o medo

"Numa terra em guerra, havia um rei que causava espanto. Cada vez que fazia prisioneiros, não os matava, levava-os a uma sala, que tinha um grupo de arqueiros em um canto e uma imensa porta de ferro do outro, a qual haviam gravadas figuras de caveiras.

Nesta sala ele os fazia ficar em círculo, e então dizia:

- Vocês podem escolher morrer flechados por meus arqueiros, ou passarem por aquela porta e por mim lá serem trancados. Todos os que por ali passaram, escolhiam serem mortos pelos arqueiros.

Ao término da guerra, um soldado que por muito tempo servira o rei, disse-lhe:

Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?

- Diga, soldado. - O que havia por trás da assustadora porta? - Vá e veja.

O soldado então a abre vagarosamente, e percebe que a medida que o faz, raios de sol vão adentrando e clareando o ambiente, ate que totalmente aberta, nota que a porta levava a um caminho que sairia rumo a liberdade. O soldado admirado apenas olha seu rei que diz:

Eu dava a eles a escolha, mas preferiram morrer a arriscar abrir esta porta.

Quantas portas deixamos de abrir pelo medo de arriscar? Quantas vezes perdemos a liberdade, apenas por sentirmos medo de abrir a porta de nossos sonhos?"

Marijot Lass

domingo, 16 de outubro de 2011

A fugacidade das possibilidades

Podemos ser quem quisermos ser. É a cilada de nosso tempo.
Temos todas as possibilidades, mas não nos agarramos a nenhuma. Pois agarrar-se a uma é abrir mão de todas as outras. Afinal, “a fila tem que andar”, “eu pego mas não me apego”...

E uma das principais queixas em consultórios de psicanálise, atualmente, é: “Não sei o que quero da minha vida....”.

Não há tempo. Ninguém pode se “dar ao luxo” de perder tempo, cerzindo vínculos. Ou, magicamente eles se dão, como blocos se postam no entre - dois, ou se esfarrapam. São tantas as possibilidades assim? Mesmo?

As pessoas querem é ser amadas, olhadas, e freneticamente buscam isso. Quando se consegue. Adeus! Encheu o saco, perdeu a graça, piratas em busca de novos mares. Não se tem mais paciência com o outro. Estamos todos a ponto de estourar a qualquer momento. A chutar o balde e cancelar aquilo que não gera prazer. Como pensar em cerzir vínculos, então?

Formamos, então, o casal. Surge o bloco do amor pré-fabricado. Standart.
Que conhece ou que estranha? Que se assusta com outro. Afinal, quem é este aí: este outro aí? Que dorme comigo, que janta comigo, que mora comigo.

Os vínculos se estabelecem de tal forma que ou as pessoas estão juntas o tempo inteiro ou tudo se acaba. Casais instantâneos. Tentando que o vínculo exista a priori, e não se constitua. Abra-cadabra! E casais de estranhos se formam! E zapt-zum, instantaneamente casais se rompem e novos se inauguram.

Pois é, este é o risco de uma relação a dois. Deparar-se com a existência de uma pessoa que não é a da minha imaginação, aquela sonhada. E nem alguém disposto a satisfazer todas minhas exigências. Corre-se o risco de encontrar uma pessoa, e não um objeto. Isso mesmo, uma pessoa e não uma extensão de nosso narcisismo.
A liberdade para o amor que conquistamos nos leva para muitos lugares, mas ironicamente, não até um lugar chamado amor.

E pessoas, considerando-se rebeldes, autênticas e inovadoras, estão apenas dançando conforme a musiqueta. Dois pra cá, dois para lá...
Sem conseguir fazer um questionamento e um contra ponto ao que está dado! Sem conseguir sair um pouco de si. Buscando apenas aquilo que lhes confirma o seu narcisismo.

E a luta histórica pela liberdade para amar, como troféu, recebeu um caneco furado.

É isso mesmo, que bela história daria. Assim como Ulisses e Penélope, Cassandra e Édipo, temos no contemporâneo, a história da liberdade como castigo.Que belo épico não poderíamos construir. Já existem filmes contando nossas histórias. Ahã!

Mas há algo muito intrigante nisso tudo.

Somos livres para amar, mas não amamos.


Talvez, amamos, como dirá Chico “um tipo de amor barato”


“Um tipo de amor
Que é de mendigar cafuné
Que é pobre e às vezes nem é
Honesto
Pechincha de amor
Mas que eu faço tanta questão
Que se tiver precisão
Eu furto
Vem cá, meu amor
Agüenta o teu cantador
Me esquenta porque o cobertor é curto”
(Chico- amor barato)

Isso, caros contemporâneos! Isso! Vivamos o êxtase dessa liberdade desapegada e vazia.

“A era do vazio” já nos alertou Lipovetsky.

Geração do amor livre:
Pode-se tudo. Tocar. Usar.abusar.
Comer e Cuspir no prato;
Para amar não somos livres.
Somos excluídos do amor.
Configurações sociais.
Migrações sociais.
Pós-revolução sexual
Não somos livres para amar.
Somos livres para sermos livres.

* Fernanda Perlin de Cesaro é Psicóloga.

A Solidão amiga

A Solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...


Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão.
Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz.
Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha.
Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão.
O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.


Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio.


As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior.

Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.


Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo:

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“

Pare. Leia de novo.

E pense.

Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.


Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!”


Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas!

Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão.

O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos.

Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:


“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes. Ali as palavras e os tempos poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...)
Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento!
Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.”


Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria.

Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer.

Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja.

Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.


(Correio Popular, 30/06/2002) RUBEM ALVES


"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Razão x Coração (Ficar ou ir embora? Eis a questão!)



Hoje minha resposta é sim.
Daqui a dois dias, não sei.
Sexta-feira que passou fui a um bar que não ia já há bastante tempo na companhia de uma grande amiga.

Um subterfúgio que arranjei para espairecer, conhecer gente nova e ficar bem.

Quase um verdadeiro fracasso minha tentativa, pois a pessoa aqui não estava em clima algum e muito menos a noite conspirou para mudar o retrospecto.
Entretanto, quando já estava quase indo embora, acabei reencontrando uma amiga de longa data e que não via há tempos. Para falar a verdade, uns oito anos ou mais. Até pelo fato dela estar morando em outro estado, acabamos nos distanciando.

Mantínhamos eventualmente conversas pelo “face”, mas, como há alguns dias, optei por excluir meu perfil do site, acabamos perdendo totalmente o contato.

Eis que ela de férias, resolveu passar por Porto Alegre e, confiando apenas nos acasos da vida, decidiu que não avisaria amigo algum, optou por deixar que o destino se encarregasse de colocar no seu caminho aqueles amigos que deveria realmente encontrar. E nos reencontramos. Entre um assunto e outro, nos atualizando dos acontecimentos da vida uma da outra, eis que surge então uma proposta oficial e direta de mudança. E confesso, balancei.

Mudança de ares, de cidade, de rotina, de vida, de Estado. Mudança bastante positiva profissionalmente, imensamente tentadora financeiramente e diríamos que “muito a calhar”, emocionalmente falando.

Talvez, o universo conspirando a favor.

Tudo que preciso hoje é sair daqui, fugir, sumir por uns tempos, alguns anos, quem sabe?

Conhecer gente nova, buscar novos desafios, alcançar novos vôos, estabelecer novas metas, esquecer o que atualmente me deixa triste, o que me angustia e me machuca. Libertar meu coração neste momento é meu foco principal. Preciso cicatrizar as feridas da minha alma e diria que me distanciar de Porto Alegre, atualmente seria o remédio ideal.

E nada melhor do que recomeçar em outra cidade, outro Estado, afinal. Por que não?

Nada que é humano tende a ser simples. Logo, qualquer decisão, necessariamente não haveria de ser diferente.

Sei que todo e qualquer tipo de mudança é difícil, por vezes dolorosa e estressante, mas muitas vezes, profundamente necessária. Para crescimento e porque não dizer, para esquecimento, para desapego.

Hoje penso assim.

Se colocasse neste exato momento meu coração e minha razão em uma balança, diria que o lado emocional está em ampla vantagem e pesando de forma considerável.
E optaria, sem muito ter para pensar, por atender ao pedido de socorro que habita em meu peito: o de ir embora, de preferência para bem longe e sem olhar para trás. Um auto-exílio necessário e urgente, eu diria.

Algo essencial para me recompor, me encontrar novamente, acertar o rumo, a direção.
Para isto, mudanças sempre são bem vindas.

Nando Reis em sua belíssima “Dessa Vez” canta exatamente isso: “Por pensar demais eu preferi não pensar demais dessa vez”.

E hoje, minha resposta é sim.

Sei que, aceitando a proposta, muita coisa muda na minha vida. Levo meus filhotes para minha companhia, mas, em compensação deixo a parceria de longos anos da natação do Maurizinho Fonseca (que sabe como ninguém extrair o máximo de mim nos treinamentos), deixo o futebol de final de semana com as meninas.

Sentimentalmente seria o ideal me afastar das coisas que não estão me fazendo bem por aqui também, mas (e sempre tem um, MAS), tenho meus gatos e cachorros que seria uma função e estres de mudança, tenho minha linda afilhada que não sei se conseguiria ficar muito tempo longe, meus pais, meus amigos que são meu suporte, meu porto seguro, meus pés no chão para tudo e não sei se conseguiria me distanciar desse jeito.

Mas no momento não consigo antecipar sofrimento, penso apenas que será melhor. E que preciso urgentemente de mudanças em minha vida.
Ter uma experiência não é apenas viver um instante, mas sim, ser transformado por um momento. E aí, pouco importa se for pela emoção causada ou pelas sensações despertadas. Tanto faz, já houve a transformação. E confesso, a última causou um estrago imenso.

Estou há algum tempo “estacionada” e presa a um sentimento que os últimos acontecimentos apenas provaram que não há mais razão de ser. Que é imprescindível virar a página, seguir em frente.

É preciso “desatar” os nós.

Ou como canta Frejat “quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar” e melhor que seja longe já que tudo atualmente me remete ao mesmo destino. E o coraçãozinho da pessoa aqui anda demasiado cansado e desgastado.

Como nada é por acaso, por que não pensar com bastante carinho nesta proposta de mudança?

Minha musa em seu mais recente livro ressalta nossa fragilidade diante de pensamentos e sugere que se tente apenas ser feliz “por nada” comentando: “Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem. Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento”.

E talvez, eu esteja buscando exatamente isso. Algo capaz de consertar o estrago feito há cerca de 20 dias pelas bandas de cá. Tentando encontrar a válvula de escape que me liberte deste sentimento atual de impotência, de ter apostado, investido e ter falhado. Desta sensação forte de fracasso, de quem está no fundo do poço, de estar com os pés enterrados na lama, sem ânimo ou sem algo realmente inspirador e capaz de me fazer sair do buraco, como ouvi de uma amiga, dias atrás. Nada como novos desafios e oportunidades de se modificar o que está fora de lugar.

Lembro de um excelente texto de Arnaldo Jabor e, que talvez, reflita minha busca atualmente por algum equilíbrio emocional à medida que ele diz que “Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós”.

E é verdade. Ando tentando voltar a “sentir”. Sentir novamente motivação, entusiasmo em pequenas coisas, coisas bastante simples, mas que me carreguem pela mão e, de preferência, para bem longe onde as lembranças que me entristecem hoje possam desaparecer por completo.

Ando correndo atrás de coisas que se distanciaram de mim. Procurando encontrar algo que me devolva todas as emoções que perdi pelo caminho, aquelas mesmas que por vezes me fez parecer ridícula, mas, que nada mais é do que a simples sensação de se estar feliz e pouco ou nada importando a opinião dos que estiverem ao redor.

E lá vem Jabor de novo para lembrar “Porque ter medo de dizer isso, porque ter medo de dizer: "amo você", "fica comigo", então não se importe com a opinião dos outros, seja feliz! Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo!”

Resumindo: Ser feliz e mais nada.

Seguindo ainda o conselho de Arnaldo Jabor, “É preciso voltar a perceber que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais e aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem haver com o que imaginou, mas que pode ser a mulher da sua vida. E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois”.

O coraçãozinho aqui precisa voltar a pulsar como antes.
E porque não buscar esta batida em outro ambiente?

Tenho tempo ainda para amadurecer a idéia, pensar bem, analisar os prós e contras e decidir.

Como diria uma sempre otimista, Letícia Wierzchowski “apesar dos pesares, vem aí a primavera... depois desse comprido e chuvoso inverno, a gente pode ver, como num sonho bom, pequenas explosões de cor, o ardente vermelho e rosa das azaléias que florescem como loucas pelos jardins porto-alegrenses. Depois de tanto tempo feio, semanas inteiras de céu cinzento pesando sobre nossas cabeças, o sopro dos dias azuis se anuncia novamente”

Se meu horóscopo de hoje também fosse o responsável por uma resposta definitiva para esta decisão, ela seria igualmente positiva já que havia lá escrito: “por enquanto é preciso movimentar-se de acordo com as circunstâncias, que andam mais alteradas do que nunca. Ou seja, quase como correr atrás do prejuízo”.

Nunca tive medo de desafios, tão pouco de correr riscos.

E estou pensando muito sério sobre tudo isso.

Só quero voltar a ter a felicidade ao alcance dos olhos e meu coração batendo no compasso de antes, mais nada.

Não estou bem aqui neste momento isso é fato e não sei quando ficarei melhor, talvez sair do RS seja o ideal.

E as coisas que surgem em nossa vida, as oportunidades que aparecem são sempre por alguma razão.

E, no momento, Porto Alegre tem bem pouco ou quase nada a me oferecer

Hoje minha resposta é sim. Até 15 de outubro, veremos!

Muita água ainda para rolar.


"Estar assim, sentir assim
Turbilhão de sensações dentro de mim
Eu me aqueço, eu endureço
Eu me derreto, eu evaporo
Eu caio em forma de chuva eu reconheço
Eu me transformo
Agora sou um vento só, a escuridão.
Eu virei pó, fotografia,
Sou lembrança do passado
Agora sou a prova viva
De que nada nessa vida
É pra sempre até que prove o contrário"

(Paula Fernandes - Sensações)

sábado, 3 de setembro de 2011

Um Brinquedo


Um brinquedo.
É como me sinto hoje. Como um simples brinquedo.
Não sei fingir que está tudo bem e de fato não está.
Ou como canta Jorge e Mateus "não vou sorrir pra esconder a dor, quando se perde um amor, se perde a direção”.

As fadas desapareceram daqueles dias que pareciam de eternos domingos, e tudo que fluía, tudo que conspirava para uma alegria sem igual, num estalar de dedos, de repente sumiu, ficando demasiado pesado.
E hoje estou me sentindo um nada, sem saber como agir e muito menos onde enfiar tudo o que sinto.

Fui a nocaute apenas com uma resposta.

Não há mais noites bem dormidas, pelo contrário, há apenas madrugadas que parecem intermináveis resultando em olhos inchados e olheiras de eternos zumbis pela face.

Tudo desregulado.

Os treinos não carregam mais energia de meta estabelecida, pelo simples fato de que não há mais entusiasmo, a tristeza me sugou o ânimo, a força, desviou meu foco por completo.

E tudo por um simples “sim” de resposta.

Quando um “sim” desestabiliza, quando uma resposta “positiva” muda as coisas a nossa volta, tudo se desestrutura, se desconcerta.

Não há mais fadas.

Não há nem mesmo mais noites de lua.

Ficou tudo tão escuro quanto um céu sem estrelas.

E os olhos embaçados de tão tristes, por lágrimas de saudades, mas, também de profundo lamento.

Nem o carinho e colo dos amigos conseguem neste momento estancar a dor que habita em minha alma.
Hoje me sinto um nada, sinto que não passei de um brinquedo, tamanha decepção da pessoa aqui.
Pelo menos é esta a sensação que domina meu peito neste momento.

De repente foi-se embora toda ternura do meu coração. Ele está seco. Os prantos que rolaram nos últimos dias, endureceram e deram um toque racional ao meu lado doce, ao meu coração de manteiga, à custa possivelmente de tamanha dor.

Dor de desolação, de tristeza, de revolta, mas também de amor.

Estou mais do que triste, estou profundamente decepcionada, paralisada diante daquilo que, pelas circunstâncias, hoje considero uma covardia. Talvez não seja, mas é o que sinto, infelizmente. E só posso falar sobre o que sinto. Nada mais.

Enquanto mantive o combinado de não causar interferências, não sabia e sequer imaginava que do outro lado tudo voltava ao normal.

E fiquei esperando o tempo passar, com o coração intacto, apenas respeitando e aguardando por respostas que só obtive por insistência nelas.

Mas a resposta simples e definitiva veio.

E, o que era para ser um “sim” de encantos, virou simplesmente um grande devastador de sonhos.
Todos foram jogados no lixo, junto com todas as esperanças e os pedaços do meu coração.

E desistir foi minha única alternativa, pois depois dos acontecimentos, aquele “sim” era um retrocesso, era motivo suficiente para dar adeus. Minha opinião, claro!

Mesmo sendo um grande amor, amor de sonhos, de contos de fadas, o único até então que me fez tremer, que me fez sentir o que até o momento não havia sentido por mais ninguém, que me fez mudar.
Ainda assim foi preciso abrir mão.
Pois estou só.
Acabei por entender que estou numa via de mão única.

Só eu sinto, ou pelo menos, sou quem de fato se declara, quem deixa o coração exposto na vitrine, entregue sem medo, quem não se importa com o que os outros pensam, quem dá de ombros aos comentários (que sempre existirão), quem quer apenas ser feliz e mais nada. Mas não foi possível.

E talvez também por isso seja a única pessoa nesta história toda a sofrer de fato.

E é exatamente por sentir tamanha decepção que optei por uns tempos de reclusão total, cortar laços, não ter mais notícias, não alimentar mais egos, não ser responsável por interferências.

Afinal, teoricamente o que os olhos não vêem o coração não sente, não é verdade?
E meus “amigos” cantam exatamente isso...

“... O que os olhos não vêem o coração não sente. Eu não vou conseguir fingir que estou contente. Vou precisar de um tempo pra te esquecer, por isto estou ausente..."

Algo desta vez teria de mudar, afinal.

Espero que também quando tudo passar consiga compreender que tudo o que fiz foi tão somente para ME PROTEGER, jamais para te castigar ou te magoar. Afinal, você não tem culpa. Victor e Léo me lembram disso “... como posso agora te culpar, fui eu quem quis te encontrar. Me joguei no escuro sem pensar. Errei, deixei me levar...”
Precisei muito fugir, sumir. Lamento, não tive alternativa.

Estou muito machucada para insistir. Um grande amigo meu e também conhecedor da minha alma, disse que “tudo ficou desgastado demais pelo tempo”, ou como a música mesmo diz “o meu coração está cansado de ser torturado e precisa de alguém”, por todo envolvimento intenso e entrega que somente eu tive. E é tão dolorido perceber isso. Terei de arrancar a “fórceps” tudo o que carrego dentro do peito.

Já havia confessado a amigos que somente duas razões àquela altura dos acontecimentos, me fariam desistir daquele amor, me faria ser capaz de “jogar a toalha”, entregar os pontos e não mais lutar.
E uma delas se concretizava a minha frente, naquele simples, direto e frio “sim”.
Como canta Léo Jaime “nesta novela eu não quero ser teu amigo”, então não há razão para manter contato.

Mas não serei eu a julgar ou condenar as escolhas ou opções afetivas de ninguém. Até porque, através dos textos, fui sempre quem mais bateu nesta mesma tecla. Então melhor pensar que talvez nunca tenha havido qualquer tipo de interesse ou, se houve, não há mais.
Simples assim.

O que importa agora? A escolha já foi feita e como diz minha “musa”, Martha Medeiros “quando se faz uma escolha está se dizendo sim para um lado e não para o outro, portanto algum sofrimento sempre vai haver”.
Vou sofrer ainda mais? Sim, muito provavelmente. E, possivelmente terei de esconder por uns tempos minhas dores no ‘quartinho dos fundos’, como diria minha “musa”.
Mas, afinal de contas, grandes amores e grandes realizações envolvem também grandes riscos, não é mesmo?

Torço para que tudo tenha sido feito com o coração e não com a razão apenas e que estejas feliz.

Nem quero mais questionar os motivos daquela resposta, seja qual for a razão, não importa, apenas aceito, sem mais justificativas. Quero apenas poder libertar meu coração, seguir em frente. Conseguir enfim gostar de alguém que não seja você.

É fato que nos reencontraremos qualquer dia desses e não conseguirei ser indiferente, pois do outro lado há alguém por demais especial e importante em minha vida e que, apesar de eu não compartilhar das suas escolhas (por razões óbvias), merecerá sempre meu respeito e consideração.

Mesmo tendo a certeza que sentirei tudo igual, e talvez, durante algum tempo ainda tudo permaneça intacto aqui dentro do peito, ainda assim, não hesitarei em dar um abraço apertado e carinhoso na pessoa que durante quase um ano iluminou e encantou meus dias, deixando-os como de uma eterna primavera.

Só a pessoa aqui tem a real dimensão do estrago que a decisão de me afastar causou aqui dentro, mas ainda assim, não é nem perto de todo o mal que, contraditoriamente, aquele “sim” fez ao meu coração.

Mas ando por demais cansada desse jogo, onde sempre o mesmo lado sai vencedor.
Cansei de ter que “ler amor nas entrelinhas”, de criar expectativas que jamais se concretizarão.

Então não há razão para insistir mais, perdi todas as minhas apostas.
Você não quis ou não foi capaz de perceber, entender e acompanhar as batidas do meu coração: Ok. Game over!

A vida continua e não espera até que se fique bem. De tudo se tira algo de bom.

O negócio agora é juntar os “caquinhos”.

Não quero mais ser apenas um brinquedo e cansei das brincadeiras feitas com meus sentimentos e, principalmente, com meu coração.

Inevitavelmente darei um período de recesso também ao meu filme preferido de “lírios”, da mesma forma que a voz doce de Roberta Campos dará um descanso aos meus ouvidos.
Para esquecer ou simplesmente, para não lembrar.

Tudo é parte do processo de desapego necessário para que as coisas voltem ao normal pelas bandas de cá também.

E tudo passa. Sempre passa.
E tudo cicatriza igual.

Por fim, deixo a música da primeira noite de “encantos” simbolizando aqui a última vez de textos sobre este mesmo tema. Ponto.


“... O Que é que eu vou fazer pra te lembrar? Como tantos que eu conheço e esqueço de amar. Em que espelho teu, sou eu que vou estar? Ao te ver sorrindo
Mais leve que o ar. Tão doce de olhar. Que nem um adeus vai apagar...”

(Pra te lembrar - Nei Lisboa)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Nossa Biografia

Gostei da entrevista que a atriz Jane Fonda deu, semanas atrás, para divulgar sua biografia recém-lançada - Minha vida até aqui. Aliás, excelente título. Geralmente biografias pressupõem um início, um meio e um fim. Jane Fonda deixou em aberto o fim: aos 67 anos, ainda pretende colecionar aventuras e emoções para quem sabe publicar uma parte dois.
Não li o livro, mas na entrevista ela diz que seu casamento com o deputado Tom Hayden, a certa altura, deixou de dar certo e, como ela não quis admitir o fracasso, optou então por se divorciar dos seus sentimentos.
Quantas vezes fazemos exatamente isso: em vez de assumir que estamos cansados, frustrados, derrubados por uma desilusão, optamos por fingir que está tudo na mais perfeita ordem e, para não passar pelo estresse de romper um casamento/pedir demissão/trocar de cidade/ou o que for, a gente simplifica: se divorcia do que está sentindo - ou seja, de nós mesmos. E botamos um farsante pra existir no nosso lugar.
Romper - o que quer que seja - não é fácil. E tampouco é um ato solitário. Ao se divorciar de sua mulher ou marido, você inevitavelmente envolverá os sentimentos dos seus filhos e de seus familiares, pra citar apenas os mais chegados.
Sua decisão vai interferir na rotina dos outros. Fará com eles sofram junto com você.

Se deseja largar o emprego, do mesmo modo: não é só você que estará se arriscando ao trocar estabilidade por incerteza. As pessoas que dependem de você também estarão arcando com as conseqüências desta sua escolha.

Assim é: todos os laços que desejamos cortar repercutem nas pessoas que amamos, o que torna tudo mais difícil.
Se você não é exatamente uma pessoa raçuda, acaba se acomodando e optando pelo mais fácil: rompe com seus próprios sentimentos. Anula-se. Faz de conta que sua infelicidade não existe.
Abandona suas dores no quarto dos fundos e abre um sorriso pro mundo como se nada de errado estivesse acontecendo.

Não dá pra negar que é uma atitude nobre, se a intenção é manter a paz a sua volta, mas escuta: você não conta? Os outros são assim tão fracos que não podem segurar uma onda pesada com você, uma onda que, segundo Lulu Santos e Nelson Motta, passa e sempre passará?
Quando fazemos uma escolha, qualquer escolha, estamos dizendo sim para um lado e dizendo não para o outro. Então, algum sofrimento sempre vai haver.
Não adianta se autoproclamar o herói da resistência contra o fracasso. Todo mundo fracassa em alguma coisa. Melhor enfrentar isso, como lá pelas tantas fez a eterna Barbarella, que trocou Tom Hayden por Ted Turner.

Isso, claro, no caso de não querermos encerrar nossa biografia antes da hora.

(Martha Medeiros)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Carta a um amigo


Definitivamente, nada é por acaso e certamente, na vida tudo tem um porque mesmo!
Dia atrás, estava eu “arrumando” minhas gavetas e me “desapegando” de certas coisas já há tanto tempo guardadas e me deparei com um e-mail que enviei a um grande amigo em 22/05/2007.

Por que ainda tinha este e-mail impresso e guardado há mais de 4 anos, não sei.
Talvez para lembrar que outra vez este mesmo amigo anda “sumido”, enfim...
Inclusive, quando percebi este e-mail entre os meus “desapegos”, no mesmo dia postei no "face book" duas frases de Drummond citadas nele na época.

O fato é que por conta deste e-mail, resolvi dar fim ao tempo ocioso de postagens.
Ainda que não seja através de nada escrito recentemente, é algo que escrevi há um certo tempo e que, por alguma razão, “caiu em meu colo” então...
Eis o mesmo que transcrevo abaixo:

Recebendo um e-mail logo cedo da manhã de uma segunda-feira (21/05/2007), resolvi voltar atrás do que até então estava decidida a não comentar igualmente, por e-mail.
Não sei se lerá até o fim ou se, pelo menos, de fato terá paciência e vontade para tanto, mesmo assim, vamos ao meu e-mail.

Uma vez li um lindo texto e, até por eu ser uma pessoa que busca constantemente descobrir diversos significados em uma mesma frase, tenha encontrado então razões suficientes para que duas delas me chamassem a atenção para este momento:

“... quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida...”

“... não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixe cego para a melhor coisa da vida: o AMOR!!!...”

Interessantes, não? Isso é Carlos Drummond de Andrade.

Acredito que ambas refletem, de alguma maneira teu atual momento na vida pessoal. Acho que, esse “amor” que hoje habita tua vida se não for aquele que te levará ao altar e te fará jurar diante de diversos amigos numa igreja que será fiel e respeitará por toda a vida a pessoa amada, pelo menos é o que mais pode estar se aproximando disso tudo neste momento. Então, aproveite. Seja feliz! Curta esse sentimento que é único e pode sim, ser pra vida toda.

Mas... Não esqueça que ele não é a salvação para tudo e a vida não é somente baseada no “amor”...

“Estar a salvo
não é se salvar

Como um navegador
que vai até onde dá
você tem que ser livre
para o que pintar

Nenhuma pessoa é lugar de repouso
juntos chegaremos lá”


(Salvação, de Nei Duclós)


Grifei a parte que acho extremamente interessante quando falamos em relação a dois.
E este poema todo é baseado nisso: num casal.
Na busca para que ambos sejam salvos da rotina costumeira de uma vida a dois: que é a anulação.
O casal viver para si apenas e esquecer-se do resto.

A maioria das vezes um dos dois até consegue seguir sua vida normalmente mesmo estando envolvido com alguém porque, certamente já passou por isso outras vezes e aprendeu com tudo o que viveu até então. Mas o outro, não. O outro vive para o seu amor, respira aquilo tudo e esquece-se de seguir com a sua vida. Se anula em função da outra pessoa. Deixa seus amigos para conhecer e desfrutar da companhia dos amigos da pessoa amada. Vê na outra pessoa o seu “lugar de repouso” e se apóia, se espalha, permanece.
E por quê?
Por que está tudo tão bom, não é mesmo?
Não há razão para mudar muita coisa, mudar o que está vivendo no momento seja por qualquer motivo aparente, algum tipo de ciúme, ou um sentimento de posse ou pelo simples medo de que algo mude repentinamente, que a pessoa amada desista desse amor.

Enfim, por tantas razões que todos em volta talvez percebam e arriscam um palpite pela mudança nas atitudes e ações de uma pessoa, mas nenhum (ou quase nenhum) se atreve a dizer com todas as letras que isso pode vir a ser um grande erro.
Não um erro por arriscar tudo por um grande amor, mas sim por abrir mão de outras coisas igualmente importantes para viver exclusivamente a esse amor.

Não estou afirmando aqui que é errado permitir-se conhecer e estreitar laços com amigos da pessoa amada, longe disso, mas isto não justifica abandonar seus laços antigos e até então importantes em função de um amor.
Os amores, por vezes, mudam com o passar do tempo, os amigos verdadeiros, não.

É meu amigo, há coisas que nossos “ombros” não suportam tão bem...

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada espera de teus amigos.
Pouco importa venha velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação...”


Esta é outra obra prima de Drummond que tenho há tempos impresso e afixado em um mural no meu quarto.
Algo para se ler mil vezes antes de dormir.
Para se pensar no que muitas pessoas andam fazendo da sua vida enquanto trabalham infinitas horas ao dia, correm tanto diariamente que se esquecem de “amar”, de viver realmente, não percebem que a vida passa rápido demais.

Ou como canta Ana Carolina em sua belíssima “O Avesso dos Ponteiros”: “... na pressa a gente nem nota que a lua muda de formato”.

Coloquei o texto de Drummond que acho maravilhoso para que perceba o lado oposto da coisa toda. Um lado frio, sem amor, sem calor, apenas vivendo o dia-a-dia para o trabalho braçal, intelectual, sem aproveitar nada do que a vida nos proporciona, a beleza infinita que ela nos brinda e oferece todos os dias.
O lado que acaba apenas “sobrevivendo” às batalhas diárias de uma vida sem doçura, sem encantamento, de uma vida sem viver.

Mas é sem aproveitar nada mesmo.
Sem amor, sem amigos, sem festas, sem divertimentos, sem família, sem alegrias.
Tanto que já não adianta mais pensar em como seria “morrer”, porque é tudo tão inútil que até a morte não quer saber disso. Quer mais é que a vida seja, de fato, uma ordem.
Uma ordem que todos temos de cumprir, seja ela breve ou longa.

Bom, quando nos encontramos no casamento do nosso colega ouvi (e falei também) sobre tua atitude de ter ido embora sem ao menos se despedir daqueles que durante maior parte da tua vida foram mais chegados. Não me incluo nestes, por isso não fiquei tão decepcionada. Mas senti por aqueles que certamente ficaram.

Lembro de eu ter comentado que a mim tua atitude não tinha surtido esse efeito todo pelo simples fato de que durante toda a cerimônia do casamento e recepção na festa dos noivos, mal trocamos algumas palavras e, ainda assim, aconteceu curiosamente quando estava absolutamente sozinho à mesa.
Isso me fez dar razão a todos os comentários que há tempos tenho ouvido de diversas pessoas. Entre eles de que o “cara aí” mudou, que anda diferente, que não é mais o mesmo.
E, confesso, cheguei ter esta mesma opinião também quando recordei que a última vez que havíamos saído juntos, e que havia tido a oportunidade de conversar contigo, tinha sido no Natal da turma, no ano passado.

Lembro de todas as coisas que te falei naquela ocasião, meu ponto de vista a respeito da tua atual escolha e tudo o mais que na época era o motivo e foco principal nas rodas da turma, enfim...

O fato é que uma das coisas que falei também era da admiração que tinha pela pessoa que tu eras. Pelo cara maravilhoso que tinha surgido na nossa turma da PUC de uma maneira totalmente “por acaso”, pode-se dizer. E que toda a galera curtia muito aquela pessoa brincalhona, descontraída, alto astral, carismática, agradável, gente boa mesmo. Pessoa rara, meu querido. Pessoa muito rara.
E me recordo, inclusive de ter pedido insistentemente que não mudasse teu jeito.

Acho que de fato isto não aconteceu. Não mudou teu jeito, continuas o mesmo.
O mesmo cara de sempre, divertido, etc., mas acredito que alguém adormeceu por aí.
Ou esse cara está sendo exclusivo e tão especial que raríssimas pessoas possam usufruir hoje em dia desta companhia, pois outros não têm mais acesso a ele.

“... não se preocupe com o futuro. Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra. As encrencas de verdade de sua vida tendem vir de coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada, e te pegam no ponto fraco às 4 da tarde de uma terça-feira modorrenta. Todo dia, enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo mesmo...”

(Filtro Solar – Pedro Bial)

A vida não tem ensaio, mas tem novas chances. Viva a burilação eterna, a possibilidade: o esmeril dos dissabores! Abaixo o estéril arrependimento, a duração inútil dos rancores.
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos: a vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão”


(Libação – Elisa Lucinda)

Duas pérolas que abrangem conteúdos opostos. Porém, uma não vive sem a outra.
A idéia de se correr riscos, mas sendo prevenido, sabendo que algo pode acontecer quando menos se espera e o querer viver intensamente algo não vivido, não planejado, algo inédito que está por vir. Às novas possibilidades, às novas chances, sem medo, sem receio.
Ambos dividem nosso pensamento quando estipulamos metas, limites para nossa vida. Queremos correr riscos sem estar nem aí para as conseqüências, outras vezes colocamos os dois pés bem fincados no chão por medo de dar um passo em falso, de ter pisado de forma equivocada e não sermos capazes de suportar o que vier pela frente.

Mas, em ambos os casos, temos essa possibilidade, a da escolha.
Podemos optar pelo que queremos de fato, dependendo do momento em que estamos vivendo.
Tudo é questão de escolha.
O que os outros pensam delas? Danem-se! A escolha é única, é nossa e ninguém tem nada a ver com isso, mas, podemos sim, acabar por escolher algo que nos afaste daquilo que até então estava tão perto da gente.
Podemos sim, apesar de ser a escolha certa, acabar por nos fechar num mundo onde ninguém mais possa entrar.
E sabe o que acontece quando um mundo fica “a dois”? As pessoas se magoam, recuam se afastam e perde-se o contato, o carinho, a confiança.

Há verdadeiramente dois lados muito difíceis nas escolhas que fazemos para nossa vida: um é estar certo e confiante da nossa opção e quem quiser que venha comigo, mas acabar agindo de maneira errada e de forma que muitos não conseguem acompanhar, outro é não optar, ficar em cima do muro, fugir da responsabilidade e esperar que as pessoas compreendam e nos apóiem sem sequer pedir a opinião delas.
De qualquer forma, tudo é uma simples (??) questão de escolha.

“Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele alguém que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente não é o alguém da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!”


(Mário Quintana)

Preciso dizer mais alguma coisa, querido?
Vários deles abraços com carinho,
Podrinha ;)

Meg Ryan 🐈💓

“Há quem não mencione a palavra amor e fale sobre ele em cada gesto que diz” Falar algo diferente de AMOR INCONDICIONAL pela guriazi...